Histórias de Moradores de Pirituba

Esta página em parceria com o Museu da Pessoa é dedicada a compartilhar histórias e depoimentos dos Moradores do bairro de Pirituba.


História do Morador: Michel da Silva Ceriaco Almeida (Michel Yakini)
Local: São Paulo
Publicado em: 22/06/2015





História: “Eu já consegui sorrir nos escombros”

Sinopse:

Em seu depoimento para o Museu da Pessoa, o poeta e produtor cultural Michel da Silva Ceriaco Almeida, ou Michel Yakini como é conhecido, conta histórias sobre sua infância no bairro Pirituba, sobre seu convívio com seus pais, a violência no seu bairro e sobre a escola. Descreve como ingressou na Universidade Federal do Paraná e se sustentou durante um tempo, mas acabou largando a faculdade para voltar a morar em São Paulo. Fala sobre sua volta a São Paulo, sobre o Sarau Elo da Corrente, a publicação de seus livros e sobre seus relacionamentos e sua filha.

História:

Meu nome é Michel da Silva Ceriaco Almeida e nasci em 17 de junho de 1981, em São Paulo, no bairro de Pirituba. Minha mãe chama Maria Eliza da Silva e meu pai é Milton Sebastião Ceriaco. Nasceram em São Paulo, os dois. A família da parte da minha mãe vem uma parte da Paraíba e outra parte de Pernambuco, nessa história da migração nordestina mesmo, ali no anos 60, 70. E a família da parte do meu pai, o meu avô é de Extrema, interior de Minas Gerais, e a minha avó é da região do interior de São Paulo, São José do Rio Pardo, por ali.

E acabam se encontrando em Pirituba. Meu avô, ele tinha um histórico de uma prática religiosa ligada à Umbanda e o meu pai foi o único filho que de alguma maneira se desenvolveu também nessa linha de prática religiosa. E meu pai se iniciou num terreiro próximo da minha casa e ele estava já dando consultas, ele incorporava já os seus guias. E uma das minhas tias, irmã da minha mãe, ela estava passando por uma questão que ela achava que era emocional, não sei. Mas ela tinha um problema, que indicaram ela a ir no terreiro pra tentar ver se ajudava ela. E a minha mãe foi com ela até lá pra ver se ajudava ela nesse sentido, e ela conheceu meu pai porque ela foi junto levar a minha tia. Eles passaram a namorar. Só eu de filho. Cada um tem filhos de outros casamentos, de outros momentos.

Eu gostava e gosto até hoje, de estar na rua jogando futebol. Então a minha avó, mãe da minha mãe, que ficava com a gente e a minha irmã mais velha. Minha irmã, como ela é de outra família, ela introduziu em casa a leitura. Eu já lembro dela alfabetizada e já trazendo gibis. Ela começou a me incentivar a ler, me mostrar e você começa também ter a prática.

Quando eu já estou alfabetizado também já começo a me desenvolver, não só na escola, mas também porque minha irmã começa a me incentivar nisso. E a gente descobre que tem um tio, irmão da minha mãe, que também tinha uma coleção de gibis da Turma da Mônica e esse meu tio também colecionava revistas de futebol e foi um universo que a gente foi indo meio junto. Eu entrei no pré com seis anos numa escola que é uma escola que a minha mãe chegou a estudar também, na época chamava Escola Municipal de Primeiro Grau General Henrique Geisel.

Tem esse lance que eu percebi que a minha família foi melhorando uma situação porque meu pai conseguiu um emprego melhor. Ele foi trabalhar de bombeiro no Jockey Club de São Paulo.

A minha mãe passou a trabalhar mais em casa, ela saiu do trabalho, passou a trabalhar mais em casa, mas começou a inventar coisas também pra fazer em casa. Daí num primeiro momento enquanto meu pai trabalhava, a minha mãe apostou em vender coisas na rua.

Eu moro numa rua que tem feira aos sábados, então num primeiro momento minha mãe falou: “Então vou fazer maria mole e você vende na feira”, então era isso que eu e minha irmã fazíamos no sábado. Eu tinha vários amigos que eram mais velhos que jogavam futebol. E uma das práticas que os amigos buscavam era de repente ter um RG falso, também era uma das coisas. Mas no primeiro momento nem passava pela cabeça, eu ia e queria jogar, não sabia de nada disso, você vai descobrindo depois. Mas isso foi fundamental pra mim porque o futebol me fez sair do meu bairro.

Eu lembro que minha irmã já estava trazendo as HQs de terror, ela lia o Cripta do Terror, Monstro do Pântano, Mirza. Ela trazia pra casa muito e a gente lia. Eu lembro que eu gostava muito do Flávio Colin, que tinha um traço muito específico de desenho. E eu gostava das histórias dele. Acho que isso que começou a me dar a ideia de ler história, por exemplo, de entender palavra escrita e ficção, acho que foi nesse universo. E no mais o livro em si eu não lembro como é que chega, eu acho que depois já, quando eu já estou fora da escola que eu começo a me interessar em pegar os livros, sim eu vou atrás dos livros.

Meu pai, no meio do caminho, ele acabou sendo preso porque ele se envolveu num ilícito anteriormente. Ele se envolveu no tráfico de drogas e ele foi preso num momento. E foi preso, pegou pena, ficou preso durante três anos na Penitenciária do Estado, que hoje é a penitenciária feminina.

Eu estava com 18, 17 anos. Mas num determinado momento, como eu já, por conta de ler bastante eu escrevia, por exemplo, cartas, essas coisas eu escrevia. Então eu conheci uma pessoa no bairro que foi através do meu pai, inclusive, que ele falsificava documentos. Falsificava documentos. E ele perguntou pra mim se eu conhecia alguém que estava querendo fazer pra jogar futebol porque ele podia até empresariar, não sei o quê, tal. Aí eu me aproximei dessa pessoa e levei alguns amigos juntos.

Mas a gente jovem também, a gente acabou caindo num puta lero e no final das contas a gente estava trabalhando pro cara, já fazendo documento falso, indo nos centros de Poupatempo, ali na Luz, indo tirar documento falso, e futebol cada vez menos. A gente começa a fazer também. Já tinha facilidade de entender esse processo de palavra, não sei o quê, documentação, estrutura. A gente combinou e falou assim: “Quer saber, vamos deixar esse maluco de lado e vamos fazer nós e vende”, entende? Então o que me atraiu no início não foi tráfico, foi uma coisa ligada a outra coisa, que era do estelionato mesmo. Mas deu errado e parei de lidar com isso.

Eu me apaixonei por esse lance de rádio, de ler e escrever muito também, comecei a me articular com pessoas que estavam fazendo isso no bairro, que estavam fazendo música, que estavam fazendo rádio também. E você vai criando um outro ciclo de convivência dentro da sua própria moradia, da sua própria vila. No bairro eu vi que o som que tinha das equipes de bar e que ficavam tocando samba, soul, funk, começou a ter a presença evangélica também, então passou a não ter mais o som do soul, mas passou a ter a pregação, porque talvez a pregação seria a solução pra aquele estado de crimes e violência.

E isso me incomodava porque eu não sentia aquilo como algo que era celebrativo como antes, que a gente podia chegar lá do nada, era diferente assim, não era convidativo, eu não gostava. Eu pensei então: “Pô, a gente tem que ocupar de novo”. A gente fez um evento, eu me lembro que em 2002 a gente fez um evento que chamava Festival de Cultura Popular. A gente juntou o pessoal do movimento anarcopunk, que eu trocava cartas com eles, já, de ter ido aos eventos, de pegar zines, livros, essas coisas.

Eu fiz vestibular pra Ciências Sociais na Universidade Federal do Paraná. Num primeiro momento eu vivi de seguro desemprego depois, num outro momento, eu fiquei como bolsista na faculdade, foi tudo muito calculado: entrar na faculdade, acabou o seguro desemprego, conseguir a bolsa, miséria e depois procurar bicos, trabalhos. Eu trabalhei em telemarketing, trabalhei no Museu Oscar Niemeyer, por exemplo, foram os trabalhos que eu mais fiz lá.

Então eu fazia isso, trabalhava, estudava e morava num bairro próximo também, Santa Felicidade. Aconteceu que por conta de eu voltar muito pra cá também, já no momento do movimento estudantil, eu vi que o movimento estudantil não tinha nada a ver com o que eu imaginava, não era uma coisa que eu achava que estava buscando de fato o que a bandeira diz, aí então me desiludi e isso me afastou da faculdade porque eu também percebi que a faculdade, na que eu estava, na Ciências Sociais era tudo muito repetitivo e eu vi no final que é mais doutrinamento do que de fato o conhecimento pra você se emancipar.

Comecei a conflitar com isso, o movimento estudantil não me seduzia mais, então eu comecei a querer voltar e eu voltava, qualquer oportunidade que eu tinha, ônibus que vai passar pra ir pra São Paulo. “Vou, quero ir!’. Comecei a voltar, voltar, voltar e aí você vai começando a reviver o seu bairro. E nesse momento eu me aproximei de um pessoal que era de um grupo de rap na época e eu conheci minha segunda esposa, a Raquel, que é hoje a parceira do Sarau. Então eu ainda estava na universidade, tal, ela foi comigo pra Curitiba, viveu um tempo lá também, a gente viveu na república. Mas eu logo me desliguei.

E o ponto fundamental desse desligamento, um ponto chave foi porque num dia num conflito eu estava em casa e eu não consegui voltar, que era na época que estava tendo o maio de 2006, que estava tendo as matanças muito fortes aqui, que o pessoal chamou de ataques do PCC, mas que na verdade nos bairros estava sendo um negócio louco, escurecia e ninguém podia sair, você não sabia quem matava, quem morria. E numa dessas eu fiquei em casa, não voltei. Minha mãe ficou um pouco preocupada: “Você vai pra rodoviária agora pegar ônibus? Deixa quieto”, eu peguei e não voltei.

Mas aí a professora de um grupo de estudo que eu participava, de uma iniciação científica, me cobrou que eu não fui na reunião, que era para eu ter voltado e falou assim: “Ah, então escreve uma análise sobre isso”. A gente se conflitou e acho que ela conseguiu o que ela queria que era me mandar embora. Nesse contexto, eu já estava também nesse pensamento de voltar, eu achei que também eu estava na hora de voltar mais próximo da minha mãe. Estava me relacionando com uma pessoa que era daqui.

A gente voltou primeiro pra rádio. No começo eu não estava muito motivado a voltar, mas o primo da Raquel, o Ulisses, do rap, ele falou: “Vamos voltar, vamos fazer alguma coisa”, eu falei: “Vamos voltar com a rádio então”. A gente voltou com o programa na rádio, só que ali logo ele desistiu, ficou eu e a Raquel. No exemplo do Sarau da Cooperifa, a gente falou: “Pô, vamos fazer um lá, replicar um lá”. E a gente frequentava também já um outro espaço com o Sérgio Vaz na época, que era o Sarau do Rap, era uma coisa também que a gente tinha uma ligação diferente, a Cooperifa é muito diferente porque é muita gente. Mas o sarau do rap era uma coisa de 20 pessoas, então tinha um contato diferente já com o Vaz.

A gente apostou em fazer em Pirituba um sarau, então a gente deixou a rádio como locutor, continuou como parceiro, mas montou o sarau em si. E o meu tio, o santista, que é o mesmo tio que me indicou esse trabalho que eu fiz na Telefonia, ele também já na rádio, como coordenador e tal, ele é o dono do bar que recebe o sarau desde então. E o sarau chama Sarau Elo da Corrente. E aí então a gente passa a fazer o sarau porque nesse momento eu já estou com livro, eu tinha publicado já um livro de contos.

Vem de um trecho de um verso do rap, que é do grupo que a Raquel cantava, do primo dela e de um outro menino, o Júnior, que o nome do grupo é Alerta ao Sistema. Então tinha um refrão de uma música que dizia assim: “Cada elo da corrente/ guerreira é valioso/ sou linha de frente na defesa do meu povo”, era um refrão que tinha. Aí a gente pegou esse trecho e achou que cabia de dizer Elo da Corrente.

Esse livro meu foi tirado das narrativas que eu tinha apresentado no grupo de estudo, eu resolvi não fazer uma prosa longa e recortar em contos. Chegando aqui em São Paulo eu comecei a identificar como é que eu podia publicar e já também no lance da internet descobri que tinha formas de publicação independentes, de edição de autor e que tinha algumas empresas que faziam. A primeira que caiu comigo foi uma do Rio de Janeiro, chamada Câmara de Jovens Escritores.

E eu vi que era isso, você mandava o trabalho, eles faziam toda a parte que necessitava de editoração e você recebia os exemplares pagando um valor. E eu dei uma sorte­, que na época eu estava procurando emprego e não tinha o dinheiro pra pagar a publicação, mas eu arranjei um emprego em Santo Amaro pra trabalhar novamente no telemarketing porque eu estava voltando e estava precisando de uma grana, tal e num primeiro momento eu estava trabalhando com material reciclável também, mas não estava virando muito. E eu fiz uma entrevista numa empresa e passei.

Eu não sei o que aconteceu, eu não fui trabalhar nessa empresa, mas eles me depositaram um mês de salário sem eu trabalhar. E eu peguei esse dinheiro e tome nos livros. E foi isso. Eu fiz alguns exemplares na época, 200 exemplares, e a gente fez um lançamento no bairro pros familiares, pros amigos. E foi só isso, eu nunca mais fiz esse livro, ele só tem isso girando por aí. E isso foi uma coisa pra iniciar o sarau também, então o sarau passa a ter um start daí.

A gente também teve um processo de separação ao longo desse processo, mas eu e a Raquel, a gente organiza junto, então também tem esse ponto, ela sempre foi uma pessoa que é linha de frente da organização então isso facilita pra poder por outra discussão também, pra dar outra cara pro sarau, que não seja só de homens ali fazendo. Na verdade a gente experimenta a versação e livre expressão. Então, os debates acontecem, os temas vêm às vezes, às vezes não, mas eu percebi que até quem não concorda com a opinião que eu possa falar mesmo sendo organizador não se sente mal, não vai lá e não volta mais.

Quando a gente começou a fazer o sarau já existia alguns apoios, mas a gente no primeiro ano não teve apoio de política pública porque estava começando, fazendo um trabalho. Por referência de outros coletivos, de outros saraus a gente viu uma possibilidade também, então no segundo ano a gente já conseguiu uma política pública pra publicar livros, principalmente.

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